Um diário nu e cru sobre o adeus de pai e mãe

Gabriela Germano gabriela.germano@extra.inf.br

2023-11-20T08:00:00.0000000Z

2023-11-20T08:00:00.0000000Z

Infoglobo Conumicacao e Participacoes S.A.

https://extra-globo.pressreader.com/article/281840058405562

SESSÃO | EXTRA

▶ Ao lado do pai, muito debilitado num quarto de hospital, Claudia percebeu um cheiro estranho tomando conta do ambiente e pensou: “Será esse o cheiro da morte?’’. Foi procurar no Google qual seria esse odor. Entre as informações que encontrou, nenhuma se parecia com o que ela sentia. Essa foi apenas uma das tantas respostas que buscou e, apesar de muitos livros sobre luto já terem sido escritos, não achou. Em “Sem pai nem mãe” (Editora Máquina de Livros, R$ 58), a jornalista compartilha suas dúvidas e descobertas, relatando a experiência de perder o pai, Paulo, e a mãe, Marina, para o câncer num período de apenas seis meses. — É um diário nu e cru sobre o processo todo. Desde ter de aprender a lidar com os medicamentos e o que eles provocam, até compreender que as pessoas nessas condições mudam, e não é por mal. No caso de meu pai, a morte chegou rápido. Já com minha mãe, a agonia se estendeu. Não há manual — resume Claudia Giudice. Para a autora, nascida num 2 de novembro, Dia de Finados, a morte até então não era um tabu, o que de modo algum a isentou de sofrer vendo duas pessoas amadas sentirem dor e se despedirem. — Deixo muito explícitas minhas relações com eles a ponto de algumas pessoas me chamarem de louca por expor tanta coisa. Mas a gente precisa desmistificar. Apesar do sofrimento, tive o privilégio de dividir com meu pai e minha mãe nesse momento final coisas que eu não tinha dividido ao longo de 50 anos — pontua Claudia, de 54, que segue: — Outra realidade importante é a mudança de papéis. Como filhos, a gente passa a cuidar deles, mas tem que aprender a fazer isso. E eles também precisam aceitar serem cuidados. Minha mãe nunca aceitou. A obra, nesse sentido, é um farol para pensarmos no nosso próprio caminho até a finitude. — Todos nós vamos envelhecer. E como vamos nos comportar? Quem vai cuidar de nós e o quanto de trabalho vamos dar aos cuidadores? Eu espero ser uma velhinha fácil de lidar — pondera com serenidade. Entre tantos relatos íntimos e emotivos, a jornalista compartilha nas páginas desenhos feitos por ela. A aquarela foi um dos artifícios que buscou após as despedidas, quando percebeu que poderia mergulhar numa depressão. Numa espécie de desabafo, ela lista os arrependimentos. Entre eles, ter aberto mão rapidamente dos pertences do pai numa faxina com a intenção de organizar tudo e ter deixado São Paulo, onde colecionava as lembranças de vida ao lado dos dois, para viver definitivamente na Bahia, onde tem uma pousada: — Quando algo me angustia, quero me livrar logo. Mas, de algumas dores, a gente não se livra. Hoje, depois de muita terapia e de escrever o livro, estou em paz. Mas, talvez, se eu tivesse ficado por um tempo em São Paulo, onde tínhamos nossas histórias, teria encontrado essa paz mais rápido. As pessoas não podem fugir do luto, fingir que nada aconteceu. Mãe de Chico, de 21 anos, ela frisa como o filho e os amigos foram uma importante rede de apoio para lidar com a ausência de Paulo e Marina. Mas é uma ausência só física: — Lidar com a orfandade é difícil. Porque você sente a solidão absoluta quando perde pai e mãe, que significavam uma ajuda incondicional. Ainda tenho a sensação de que está faltando algo. Mas sigo conversando com meus pais, pedindo ajuda a eles, e hoje sei que sobrevivi ao luto. “Sem pai nem mãe’’ é lançado amanhã, na Livraria Janela, no Shopping da Gávea, às 19h.

pt-br